terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Junkie

by Mari

Seus cabelos jogavam-se numa poça do banheiro com paredes avermelhadas. A pia ficava longe de seus olhos. Embaçado. Molhado. Ardendo. Suas pernas enroscavam-se no vaso e penduravam-se no cesto de lixo. Imundo.

Suas mãos secavam seu rosto banhado de suor. Não sentia dores, não sentia nada, mas angústia. Uma dor de dentro para fora. A dor que a levara a enfiar a seringa no braço esquerdo, empurrar o embolo e jogar nas suas veias aquela loucura líquida.

Os olhos seguiam as sombras que dançavam pelo vão da porta, trancada. Forçava o corpo a se equilibrar sobre as duas pernas anestesiadas. Seu rosto no espelho era outro. Seus olhos vidrados e fundos tentavam reconhecer o rosto que se contorcia em espasmos.

Jogou a colher, a seringa, seu elástico gasto e vencido e o resto do que a salvaria mais tarde numa sacola de plástico e girou a chave na fechadura da porta.

Um copo de vodka com gelo e limão. Os gomos explodiam entre os dentes apertados pela língua no céu da boca. As luzes explodiam em todos os rostos que olhavam o dela, espantado, olhos quase pulando a face em busca de todas as imagens que dançavam cinzentas no canto de seus olhos.

Abriu os olhos em um sofá qualquer que não reconhecia. Estava com o vestido na cintura e sua bolsa, aberta, no chão. Enfiou a mão no crochê maltratado e não encontrou a seringa e o papel. Correu até o banheiro e um homem jogado nos azulejos azuis tinha a seringa presa no braço esquerdo. Os olhos dele a procuravam e os dela choravam.

4 comentários:

Tina disse...

Muito bom, filhammmm!!!
Angustiante!
Bjomeliga

Paula Oliveira disse...

Muito bom mesmo!
Gostei de como descreveu todos os detalhes.

Beijo!

Leandro Marcio, disse...

Quantos banheiros assim já não visitamos? Imagino as histórias que os mictórios do Ibotirama, Casa Divertida e outros não têm para nos contar.

Profundamente sujo e por isso belo.

Roberta disse...

O que o Santiago não faz em nossas vidas!!!!!!!! arrasou!